sábado, 5 de abril de 2014

Carta ao pai dos filhos que não vou ter


"Meu amor,

Sei bem que no teu sinuoso e instável projeto de vida não existe lugar para filhos. Sempre te habituaste a pensar que não os querias mesmo antes da minha existência e agora, que existo, continuas a não considerar a adenda a esse projeto que se tem escrito por linhas tortas.
Por outro lado, quando penso no meu projeto de vida, imaculado, sem obstáculos, imagino-o com filhos. Nem sempre imaginei, mas agora imagino. Porque te tenho amor. Pensava nesse assunto, esporadicamente, como um projeto a realizar sem tempo nem espaço definidos, mas como um facto a consumar quando a vida o considerasse oportuno.
Bem sabes que esta diferença entre tu não quereres ser pai e eu querer ser mãe há-de dar sempre lugar a debates apaixonados e a tomadas de partidos, por parte dos outros. Há-de haver sempre a tua visão, a minha e a dos outros.
Pois permite-me arriscar, meu amor, que o que se passa dentro de ti, é um misto de querer e não querer. Queres, mas tens medo. Medo que essas linhas tortas por onde se tem escrito a tua vida, arrastem quem amas atrás de ti.
Na opinião dos outros, a mais devastadora, porque todos somos impiedosos quando tecemos opiniões sobre a vida dos outros, há-de tornar-se incomportável a falta de conciliação neste assunto que é tão estrutural na vida de um casal. Tão fundamental para o sucesso de uma relação. Compreendes quão condenados estamos aos olhos dos outros?
(Apetece-me rir. Que sabem eles? Que conhecem os outros sobre o nosso amor?)
Pois deixa-me dizer-te qual é a minha visão desta história, que é apenas nossa e não de terceiros opiniosos:
Antes de, sequer, pensar em ter filhos contigo, apaixonei-me pelo homem. Perdi-me de amores por ti. Compreendes? Sem filhos, sem histórias tortas ou direitas, sem te conhecer o passado e sem prever os teus planos para o futuro. A história dos filhos veio muito depois deste amor se consolidar.
Por isso, meu grande amor, o que temos, o que existe, e o que é muito real, somos nós os dois. Tu e eu. E é isso que conheço como felicidade. Para quê arriscar e colocar em jogo o que temos?
Não sei o que é ter filhos mas podia imaginar - não fosse o facto de todos os pais dizerem que imaginar ser pai não passa de uma medíocre e irrealista fabulação da realidade, seja ela boa ou má. Nada me leva a crer que seria mais feliz se além de ti tivesse um filho. Ou mais filhos. Nunca acreditei em colar a felicidade com adereços. Quantos exemplos conhecemos em que a cola apenas estalou mais a relação? Quantos casais deixaram de se olhar depois de ser pais? Quantos se perderam uns dos outros apesar de estarem ali, lado a lado.
Podemos nunca vir a ser pais, poderás nunca vir a passar os teus maravilhosos e humanos sentimentos, poderei nunca vir a saber que tipo de mãe seria, mas haveremos de continuar a construir esta relação de homem e mulher. A elevar o amor e a dar um significado à palavra felicidade.
Podemos nunca vir a celebrar o nascimento de um filho, a festejar o passar dos anos, a celebrar datas mas, sabes que mais: acima de tudo estaremos sempre nós os dois. Porque nos amamos."

Via o blog Dias Cães.

2 comentários:

Dias Cães disse...

É um prazer ver um texto meu partilhado aqui.
Obrigada.

Be Jay disse...

Um texto tão pungente, tocante e pessoal merece ser partilhado aos sete ventos.
Grato pelas suas palavras e volte sempre.