Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.
in Piolho n.º6, Edições Mortas, 2011.
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domingo, 19 de fevereiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Barco
Até onde irá este barco? o que o espera no mar?
Antes porém da pergunta, há que desenhar as velas,
moderadas na tintura, muito suaves nos contornos.
E, além de marinheiros, haja no barco figuras
libertas e ociosas. E não pareça o pintor
que quis mostrar pela força tudo aquilo que sabia;
pelo contrário, que deixou muitas coisas por pintar.
E só então a pergunta. Aonde irá este barco?
o que o espera no mar? Experimentai na resposta
o caminho mais remoto, que a parte melhor da pintura
não se pode ver de fora, nem sequer se faz com a mão,
apenas com a fantasia. Agora sim, companheiros,
só nos falta um capitão. Querida baleia, a propósito,
acaso sabes de um homem a quem chamavam Ahab?
in Modo fácil de copiar uma cidade, edição & etc., 2011.
Antes porém da pergunta, há que desenhar as velas,
moderadas na tintura, muito suaves nos contornos.
E, além de marinheiros, haja no barco figuras
libertas e ociosas. E não pareça o pintor
que quis mostrar pela força tudo aquilo que sabia;
pelo contrário, que deixou muitas coisas por pintar.
E só então a pergunta. Aonde irá este barco?
o que o espera no mar? Experimentai na resposta
o caminho mais remoto, que a parte melhor da pintura
não se pode ver de fora, nem sequer se faz com a mão,
apenas com a fantasia. Agora sim, companheiros,
só nos falta um capitão. Querida baleia, a propósito,
acaso sabes de um homem a quem chamavam Ahab?
in Modo fácil de copiar uma cidade, edição & etc., 2011.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Terreno
Para a Rute
Muitas vezes o pintor fica sozinho,com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.
É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.
in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, & ETC, 2011.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Poço
Aconteceu, ponto final.Nunca hà só uma razão
para estas coisas. Todos vamos secando por dentro.
Mas talvez possamos consertar o poço e salvar
o campo, com alguma lucidez e paz de espírito.
A praia, o clube, o parque de Santa Marta,
o salão animatógrafo, o coreto
duas vezes por semana. A época de banhos
ainda não acabou, excepto algures dentro de nós.
E nem se trata do que aconteceu no passado
ou do do que pensamos que pode acontecer no futuro.
...
Pelo menos acredito nas tuas intenções. As nossas mentiras são velhas,
sabemos dizê-las bem.
in Quem Diremos Nós Que Viva, Edições Averno.
para estas coisas. Todos vamos secando por dentro.
Mas talvez possamos consertar o poço e salvar
o campo, com alguma lucidez e paz de espírito.
A praia, o clube, o parque de Santa Marta,
o salão animatógrafo, o coreto
duas vezes por semana. A época de banhos
ainda não acabou, excepto algures dentro de nós.
E nem se trata do que aconteceu no passado
ou do do que pensamos que pode acontecer no futuro.
...
Pelo menos acredito nas tuas intenções. As nossas mentiras são velhas,
sabemos dizê-las bem.
in Quem Diremos Nós Que Viva, Edições Averno.
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