sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Uma espécie de perda
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos,
utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos.
Fizemos. E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um
apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a
sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
o tempo aprazado
(últimos poemas 1957-1967)
trad. judite berkemeier e joão barrento
assírio & alvim
1992
Via blog canal de poesia
foto: Dear Caffeine
manobras de outono
Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gondolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.
Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e meríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.
Vamos viajar! Debaixo dos ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pôr-do-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Tarefas domésticas
Beijamo-nos como quem,
debaixo do mesmo tecto,
limpa o pó, aspira o chão,
desempoeira o corpo
carente de afecto.
Mas precisar não é pertencer,
há sempre uma cortina,
um tapete que pode esconder.
Precisar é como respirar,
é coisa de repetir sem pensar,
e nós corpos que não são do outro um,
corpos que depois do amor,
já não é amor e ainda lhe chamamos amor,
amargos por dentro, mudam de cama,
evitam a intimidade do sono
como cães sem dono, ao abandono.
Raquel Serejo Martins, inédito, Outubro|2015
Na floresta do alheamento
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
In Na floresta do alheamento [do Livro do Desassossego em preparação], in A Águia, n.º 20 [2.ª série], agosto de 1913, pp. 38-42. Via blog Equinócio de Outono.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
e eu vejo através da fechadura que o tempo continua escuro
não houve tempo para despedidas
dentro de casa há lâmpadas acesas
no final da tarde
quando a luz projecta sombras na parede
a casa é como uma paisagem
e eu vejo através da fechadura
que o tempo continua escuro
Seria mais feliz um momento ...
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Melancholia
Mela, Mela, Mela, Mela, Melancholia
Melancholia, mon cher
Mela, Mela, Mela, Mela, Melancholia
schwebt über der neuen Stadt
und über dem Land
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Quiet These Paintings Are
Quietly these colours will fade
but soon they will be as one.
For a moment i will stare
into this deep saddened sea
and will suffer the death's fright.
Under these waves emotions lay,
still never they'll return
as they are laid to rest.
Into this one lonely life,
which, perhaps is growing.
Painfully...
into life to die...
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
loving you is like loving the dead
Onde quer que o encontres
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo – é teu,
para sempre, o meu nome.
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