terça-feira, 25 de março de 2014

Sul


Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.

Que o dia te seja limpo


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

sexta-feira, 21 de março de 2014

Até para o ano


21 de Março, Dia Mundial da Poesia.

Una mujer y un hombre cara a cara


Una mujer y un hombre llevados por la vida,
una mujer y un hombre cara a cara
habitan en la noche, desbordan por sus manos,
se oyen subir libres en la sombra,
sus cabezas descansan en una bella infancia
que ellos crearon juntos, plena de sol, de luz,
una mujer y un hombre atados por sus labios
llenan la noche lenta con toda su memoria,
una mujer y un hombre más bellos en el otro
ocupan su lugar en la tierra.

Olha-me de novo


Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

domingo, 16 de março de 2014

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior

Isto agora só um dilúvio lava

A solidão ecoa nas paredes rosa deste pátio
se não fosse a minha solidão dir-se-ia ser o vento

apenas sei que quando me sento
nestas tão verdes pernas metálicas
os sinos alcançam o tempo para lá de si mesmo
isto é o tempo onde o tempo acaba
e outra coisa começa

uma força maior do que as minhas tão débeis forças
força-me a seguir uma estranha marcha
e no meio da procissão surges uma vez mais
como uma promessa de alminhas mortas
pisando-me o peito e o rosto
como se sentisse remexer-se a terra
que um dia nos receberá tão apartada
e fossem teus os beijos de toda a gente
no roxo menino que o pano envolve

porquê então esquecer-te se até no esquecimento
tu vives e respiras e andas?

mea culpa
por tão minha nobilíssima culpa
tu és a enormidade de todos os desamparos
tu és esta marchinha tão fúnebre
no alto da minha aldeia

ainda assim me perguntas
que faço eu aqui a teu lado nestas horas tão escuras?

e lembramos todos os romances
a cujas páginas arrancámos o amor
e lembramos do sobretudo
esquecido sobre aquele verdíssimo banco
num londrino parque numa noite de chuva

e lembro
sobretudo eu lembro-me
de que eras apenas tu o único capaz de me lembrar
que eu sou este ser literário
a quem um dia o sangue derramou dourado
sobre a fúria sobre a ternura da carne e do símbolo

de que eras apenas tu
a quem podia olhar de forma inconfessável

de que eras apenas tu que sabia
que não nos basta estes collans de vidro prateado
que nos foram dados no mais remoto dos nossos aniversários

que eras tu que sabias que os meus olhos
podiam ser azuis ou encarnados
pois eu continuaria a ser eu eu eu

eras tu esse ser tão vividamente literário
e merda para todos aqueles que maldisseram a literatura
por tanta merda ter passado como se fosse literatura

a literatura é vida
a literatura é literatura
e tu és daqueles que sabes que os olhos da literatura
podem ser azuis ou encarnados
pois ela continua a ser literatura

apenas tu eras aquele que sabia
que apesar de tantas horas passadas na cozinha
eu como tu ou o Dr. Jekyll bem que podíamos viver de morangos e de alegria

Nestas horas
os meus olhos vão ter com os teus
maltrapilhos humanos seguros apenas
por esta massa opaca de água
que em horas como estas
nos toldam as vistas
nos dão a importância do que perdemos
e perdido estará para sempre como numa sala escura
para onde tudo o que não é vai

Andam assim desaparecidos durante horas
e depois retomam a este paradeiro onde tenho
nome civil, emprego, morada
e a cada três segundos
num profundíssimo silêncio
que até ao mais duro dos homens comoveria
se pudesse ser ouvido
morre um poeta.

Isto agora só um dilúvio lava
oiço uma mulher atrelada a um cão a dizer
sobre as estivais cacas.

Sim, isto agora só um dilúvio lava.

Foto de Oleg Oprisco

sábado, 15 de março de 2014

ainda há coisas certas na vida

sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição
que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio

in Manucure
Foto de Laura Makabresku

Émulos

Foi como amor aquilo que fizemos
ou acto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logo aceite quando fodemos.

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? Foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a libido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quando quis tocar em estilo líquido

In Mulher ao Mar
Foto de Laura Makabresku

sábado, 8 de março de 2014

Ficarás para sempre abraçada a um navio naufragado

Como é audível o teu amor. O teu cuidar triste de uma coisa triste. A tua dependência das coisas escuras. A tua necessidade de enrolares as palavras que te explicam. As pedras intensas dos teus olhos, filhas do peito e tão frias. Tão impossíveis no sal da tua vida. Ficarás. Ficarás para sempre abraçada a um navio naufragado, mas que é capaz de existir assim. E tu és tão capaz de amar em surdina, de possuir o frio do nosso silêncio, morrendo tu, todas noites, caindo devagar no nosso sono comum.

in ré menor

Texto retirado daqui
Fotografia de Giulia Bersani

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A todo o sal conheço que é só teu

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Foto de Laura Makabresku

Inverno

como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno 
de súbito separámo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas 
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo 
estão à espera dela …

elogio de maria teresa

(...)
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental

Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo. 
Repete-me outra vez que o par 
do conto foi feliz até à morte. 
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer 
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite. 
Conta-mo mil vezes por favor: 
é a história mais bela que conheço.

Pintura: Lovers de Charles Webster Hawthorne