Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
Foto de Laura Makabresku
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Inverno
como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separámo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela …
Foto de Laura Makabresku
elogio de maria teresa
(...)
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental
Conta-mo outra vez
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor:
é a história mais bela que conheço.
Pintura: Lovers de Charles Webster Hawthorne
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Variações
Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no siêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no siêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
quando entre a relva e a copa das árvores me esquecia de pensar
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,
e humano, como um destino orgânico e sensato,
fica em mim como um muro imóvel, um aspecto esquecido
e altivo de todas as coisas, de todas as palavras.
Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência
mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem. Marcávamos férias
em meses diferentes. O fim do ano, a Páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,
a tua, não poderiam nunca encontrar-se no mundo.
Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,
e humano, como um destino orgânico e sensato,
fica em mim como um muro imóvel, um aspecto esquecido
e altivo de todas as coisas, de todas as palavras.
Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência
mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem. Marcávamos férias
em meses diferentes. O fim do ano, a Páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,
a tua, não poderiam nunca encontrar-se no mundo.
Se faz noutro futuro o nosso encontro
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.
E no teu dorso nu escrevo o verso
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.
***miss. v
Mensagem aos adolescentes
Isto não o deveis tentar repetir em casa, crianças.
Crianças, experimentem fazê-lo em casa
e sabereis o que é bom sem que ninguém vos conte como é.
Recordem que não há nada que os vossos pais possam ensinar-vos.
Eles não se substituem a vós.
Recostai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas se passam
e ninguém conseguiu provar
que sejam muito piores que uma guerra.
Existe um paraíso no fim dessa linha de pó.
Quanto causa dano e não o reclamam,
crianças, estais a trocá-lo pela serenidade.
Já vos falaram dela? Alguém conhece a que sabe?
Se ignorais quem sois evitem o rodeio
de o averiguar unindo-se aos demais. Uma praça em grupo
é um posto no mundo;
pois agora,
crianças,
que levante a mão aquele de vós que queira morrer sendo útil e sensato.
Tendes razão: não é nada divertido.
Além do mais, sei que não sois felizes,
na melhor das hipóteses pensais que todo o mundo vos odeia. Pois é verdade,
mas há razões de sobra para isso: sois jovens e estúpidos
e não tendes direito
a todo esse futuro que ides malbaratar (como fizemos nós).
E então, estais sozinhos? É claro que sim.
Aprendei a ser livres, não eviteis a mentira;
vereis por experiência que é mais sólida que uma verdade negociada.
E acima de tudo,
crianças,
não acreditem
que a vida merece ser vivida
apenas porque desde sempre o garantem os piores cabrões.
Retirado daqui.
Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.
Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
domingo, 24 de novembro de 2013
A mão no arado
a tristeza e
aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os
meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é
triste envelhecer à porta
entretecer nas
mãos um coração tardio
Oh! como é
triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul
das extremas manhãs do verão
ao longo do mar
transbordante de nós
no demorado
adeus da nossa condição
É triste no
jardim a solidão do sol
vê-lo desde o
rumor e as casas da cidade
até uma vaga
promessa de rio
e a pequenina
vida que se concede às unhas
Mais triste é
termos de nascer e morrer
e haver árvores
ao fim da rua
É triste ir pela
vida como quem
regressa e
entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no
outono concluir
que era o verão
a única estação
Passou o
solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos
ir até ao fundo da verdura
como rios que
sabem onde encontrar o mar
e com que pontes
com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de
palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais
triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar
castanhas depois da tourada
entre o fumo e o
domingo na tarde de novembro
e ter como
futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida
sem nenhuma infância
revendo tudo
isto algum tempo depois
A tarde morre
pelos dias fora
É muito triste
andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta,
administra a tristeza sabiamente
Na morte de Marilyn
Morreu a mais
bela mulher do mundo
tão bela que não
só era assim bela
como mais que
chamar-lhe marilyn
devíamos mas era
reservar apenas para ela
o seco sóbrio
simples nome de mulher
em vez de
marilyn dizer mulher
Não havia no
fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu
demasiados barbitúricos
uma noite ao
deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que
tinha errado a vida
ela de quem a
vida a bem dizer não era digna
e que exibia
vida mesmo quando a suprimia
Não havia no
mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um
dia dispôs do direito
ao uso e ao
abuso de ser bela
e decidiu de vez
não mais o ser
nem doravante
ser sequer mulher
O último dos rostos
que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem
regresso mais que rosto mar
e toda a
confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a
violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo
mar intensamente condensar
Tomou todos os
tubos que tinha e não tinha
e disse à
governanta não me acorde amanhã
estou cansada e
necessito de dormir
estou cansada e
é preciso eu descansar
Nunca ninguém
foi tão amado como ela
nunca ninguém se
viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a
mulher mais bela
mas não há coisa
alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão
é pedra em nosso peito
Perto de marilyn
havia aqueles comprimidos
seriam solução
sentiu na mão a mãe
estava tão
sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal
a utilizavam
que viam por
trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo
de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja
bela o adjectivo a empregar
que em vez de
ver um todo se decida dissecar
analisar partir
multiplicar em partes
Toda a mulher
que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não
amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao
fim coisa que mexe coisa viva
um segundo
bastou foi só estender a mão
e então o tempo
sim foi coisa que passou.
Subscrever:
Mensagens (Atom)















