quinta-feira, 25 de julho de 2013

Memorie bolognesi

Vecchia Bologna, t’amo! [...]

Questa è la poesia, la vita, il moto

Che la mia mente sogna...

È pieno il mio bicchier — senti? — Lo vuoto

Per te, vecchia Bologna!"

(Da 'Memorie bolognesi', Postuma, Olindo Guerrini, 1877)

Foto © Elisabetta Mandrioli, 2013
"Bologna e i suoi portici" (quartiere Santo Stefano, luglio 2013)
© Elisabetta Mandrioli, 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Becherovka

Norueguesa, alta, de um moreno
duvidoso que sorria muito.
Pedia-me insistentemente para não estar
triste como deveras estava.
E pagou-me, creio, o último copo,
antes de me perguntar "o que fazia".

Escrever, sobre a morte, não é
exactamente uma profissão.
Mas foi a resposta que lhe dei,
enquanto um guardanapo qualquer
abreviava, só para ela, a minha "obra".

Nunca saberei se percebeu a letra,
se comprou os livros, se chegou
a ouvir o que em péssimo francês
lhe tentei dizer nessa noite, a mais perdida.

Os versos são quase sempre isto: um modo
inaceitável de dizer que não tocámos o corpo
que esteve, por uma vez, tão próximo
de nós – e que nem um nome breve nos deixou.

Via blog Hospedaria Camões

Casa sobre o mar

A viagem acaba aqui:
nos mesquinhos cuidados que dividem
a alma que não sabe já dar um grito.
Agora os minutos são iguais e fixos
como as voltas da roda de uma bomba.
Uma volta: a subida da água que retumba.
Uma outra, nova água, por vezes um ranger.

A viagem acaba nesta praia
que os assíduos e lentos fluxos atormentam.
Nada se desvela para além dos preguiçosos fumos
a marina que tecem de conchas
os benignos ventos: e é raro que se mostrem
na bonança muda
entre as ilhas do ar migrantes
os espinhaços da Córsega ou a Capraia

Tu perguntas se tudo assim se desvanece
Nesta pouca névoa de memórias;
Se na hora que entorpece ou no suspiro
do recife se cumprem todos os destinos.
Queria dizer-te que não, que se aproxima
a hora em que passarás para lá do tempo;
talvez só quem o quer seja infinito.
e isso tu poderás, quem sabe, mas eu não.
Penso que para os mais não haja salvação,
mas alguns subvertem todo o desígnio,
passam o umbral, encontram-se de novo quando querem.
Antes de renunciar queria indicar-te
este modo de fuga.
lábil como os agitados campos
do mar a espuma ou a ruga.
Dou-te também a minha avara esperança.
Para novos dias, cansado, não sei alimentá-la:
dou-a em penhor ao teu fado, p’ra que ela te salve.

O caminho acaba nesta riba
Que a maré rói com movimento alterno.
O teu coração está perto e não me liga
levanta ferro já talvez para o eterno

Via blog O Melhor Amigo

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dores de crescimento

Os desgostos de amor são horríveis. E, por serem horríveis, as pessoas dizem que fazem parte; que são o preço; que são um caminho; que dão força e fazem crescer. Tal é o medo de aceitar a totalidade da tragédia que são, que se chega ao ponto de ver os desgostos de amor como um rito de passagem não só para a humanidade como para o próprio amor – o que é muito mais grave. É sempre outrem que fala assim levemente, alguém que, se calhar, nunca teve um desgosto de amor digno do nome ou, se o teve, já o esqueceu e, ao esquecê-lo, provou que nunca amou, por muito desgostoso que tenha ficado. Porque também existe o desgosto de ser abandonado por alguém de quem nos habituáramos a fugir, e de já não ser amado por quem nunca amámos. Mas isso é um simples desgosto que nada tem a ver com o amor. Já um desgosto de amor é um desgosto completo: uma desilusão e uma angústia; uma frustração de quase não existir, que começa por nós próprios, num incêndio de chuva que vai por aí afora até estragar o mundo inteiro, incluindo o que mais se queria proteger: a pessoa amada. Os abutres da consolação pretendem reclassificar os desgostos e ofender o amor e, distraídos pelo prazer necrófilo de cheirar, mesmo numa pessoa amada, a morte do amor alheio – tão secreta e infinitamente invejado! -, chegam a dizer as três palavras mais estúpidas, cruéis, inúteis e indignas daquelas circunstâncias: “Foi melhor assim.” Acrescentando, às vezes, mais duas: “Deixa lá.” Como se pudéssemos responder: “Boa ideia – vou deixar!” Os desgostos de amor estragam a alma. É preciso ter muito medo deles. Respeito. Cuidadinho. Tratar o amor nas palminhas. Mesmo antes de chegar a pessoa que se vai amar. É que os corações partidos ficam partidos. Deixam de poder amar. E, em vez de amar, tornam-se músculos leves e cínicos, trocistas e elegantes. Pode até ser muito giro ser assim. Mas está para o amor como o gosto duma pedra de sal está para o mar. E às vezes ainda é mais triste: é o próprio gosto pelo amor, como quem gosta de um prazer qualquer, que mata o amor – a possibilidade de amar – logo à nascença. Será este o único desgosto, por muito caladinho que seja, tão grande como um desgosto de amor.

I will remember


terça-feira, 2 de julho de 2013

Una sera d'inverno in città


Ora ha smesso di piovere. Dalla finestra il mondo è a gocce:
un viso senza naso, occhi, labbra. Solo queste minute lacrime
sugli alberi e le case. Una in particolare si rischiara
dove qualcuno piange sulla sua poltrona
composto, fermo solo incerto se la casa somigli
a quelle che abitò in passato e che confonde.

Non è di nostalgia che piange, ma per il peso intero
della pioggia, come se lui fosse il tetto
che sopporta e si scrosta.
Come se l’intero palazzo, gonfio di acqua e  pietra
rivelasse un’offesa.

Una creatura può crucciarsi per questo, passare sveglia la notte
o replicare nel sogno la desolazione. Essere in un burrone.
Stare lì tra la terra, nella pioggia che viene.

 in Il catalogo della gioia

[L’amore è brusco, di poche parole]


L’amore è brusco, di poche parole.
Cerimonia coperta di lana grezza.

Uno qui impara a non dire 
                                       l’essenziale.
Solo si capisce che siamo delle ombre.

All girls should have a poem


All girls should have a poem
Written for them even if
we have to turn this God-damn world
upside down to do it.
Photo

A vida responsável

Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

Cactos

Os espinhos são a minha linguagem.
Anuncio a minha existência
com um toque de sangue.

Estes espinhos já foram flores.
Odeio os amantes que se traem.
Os poetas abandonaram os desertos
e regressaram aos jardins.
Só os camelos permanecem aqui e os comerciantes
que transformam as minhas flores em pó.

Um espinho por cada rara gota de água.
Não sou uma tentação para as borboletas.
Nenhum pássaro canta em meu louvor.
Não sou responsável por nenhuma seca.

Crio outra beleza,
para além do luar,
deste lado dos sonhos,
uma afiada e penetrante
linguagem paralela.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Faccia


Pur di non perdere la faccia
di fronte a voi,
a quante cose ho rinunciato.

Non vi angustiate per me: stare senza ormai
mi viene naturale, non mi costa
quasi più niente.
Da tanto tempo le ho lasciate andare,
e tanto profondamente,
che se me lo chiedeste non saprei
dire bene cos’erano
e se davvero le volevo. In testa
è vuoto, il loro posto.
Neppure dei desideri
c’è più una traccia.

Solo la faccia mi resta.

Eccola: è vostra.

in Voi / Photo

Talvez eu seja sorumbático


Tu não sabes os lugares por onde andei. Tu não sabes porque que é que a voz me falha e as pernas tremem. Tu não conheces os meus desertos. Beber sete cervejas e cambalear por causa de uma conversa e de uma foto do Che. Emborcar whisky após whisky e debitar poemas de amor e sangue perante uma plateia que tanto me ama como me odeia. Tu não sabes os paraísos e os infernos que levam a uma só palavra, a uma só canção. Há um mundo entre nós. Um mundo que nos separa e divide. Mas eu estranhamente, primitivamente amo-te.
Tu desconheces os meus caminhos. Conheces parte das minhas fraquezas e dos meus silêncios. Talvez nunca seja possível encontrarmo-nos. Talvez os nossos caminhos nunca mais se cruzem. Talvez o código, a tribo, o ritmo não coincidam. Talvez a linguagem não se esteja a adequar. Talvez eu seja sorumbático. Mas eu estranhamente, primitivamente amo-te.

In Sexo, Noitadas e Rock n’ Roll

domingo, 23 de junho de 2013

Book of Longing

I don't remember
lighting this cigarette
and I don't remember
if I'm here alone
or waiting for someone.

in Book of Longing (2006)/ Livro do Desejo, ed. Quasi (2008)
Obrigado I.R. pela partilha** 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Aniversário


Não compreenderás
para que é que voltei.
Talvez, aí deitada,
não compreendas
nada do que vive.
Voltei, apesar de tudo,
para falar-te outra vez.
(Está molhada
e limpa a colina.)
Ainda te vejo
com o rosto de sempre
e os cabelos, em seu reino
de fumo, algo encanecidos.
Não tenho olhos
para mais. Não és
talvez assim e é isso a morte.

Voltei para te falar.
Estou aqui. Não compreendes
nada. Esqueci-te
tanto e consegui
esquecer-te tão pouco.
Estou alegre: às vezes
não me recordo de ti
(também isso é a morte?).
Não sei se me compreendes,
nem sequer
se estás aqui ou deslizas
por um ar que nunca
pesou sobre a minha boca.

(A colina, apesar de tudo,
está quieta debaixo do céu
tal como dantes.)
Mas ouve-me se puderes.
Num dia como o de hoje
caiu a neve,
arrebatadora. Eu cumpro,
inutilmente, o rito. Mas não importa;
não podes compreender-me.
Tudo foi cortado.

Poema incluído em A modo de esperanza (1954).
Tradução de Osvaldo Manuel Silvestre.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Jardim Noturno


Amor, escuta um segredo
Tua pele é lisa, lisa
Minha palma que a analisa
Não tem medo: fica nua.

Fica de tal modo nua
Que eu, ante tanto abandono
Transforme o desejo em sono
E não seja apenas teu.

Via Sr. Teste