sábado, 26 de janeiro de 2013

Los placeres inferiores


No desdeñes las pasiones vulgares.

Tienes los años necesarios para saber
que ellas se corresponden exactamente con la vida.
No reduzcas su acción,
pues si del breve tiempo en que consistes
las sustraes,
es todavía el existir más deficiente.
Descubre su verdad tras la apariencia,
y así no habrá falsía,
y no podrás mentir que fue razón de vida lo que sólo fue tránsito.
Más ellas te evitaron el fiel aburrimiento de las horas.

Exigen lucidez, no en su experiencia
sino en su escaso ser;
valóralas exactas,
para lo cual has de saber lo que la vida vale,
y esa sabiduría hace tiempo que es tuya.
Si cometes error cuando las midas,
hazlo siempre en tendencia de la degradación.

Nunca mejores lo que vale poco.
y que no tengan nombre, ni tiempo detenido
y queden confundidas en su promiscuidad.
Sabes que tu memoria es débil, y te ayuda.

Todas son una sola,
como es una la vida.
Y las otras pasiones, que merecen un nombre
y el cobijo de un tiempo,
sálvalas lejos de ellas,
y siempre te recuerden lo que la vida no es.
Y agradece a la vida esos errores.
Via o melhor amigo

entren calor y noche

La cama está dispuesta,
blancas las sábanas,
y un cuerpo se me ofrece
para el amor.
Abramos la ventana,
entren calor y noche,
y el ruido del mundo
sea sólo el ruido
del placer.
Que no hay felicidad
tan repetida y plena
como pasar la noche,
romper la madrugada,
con un ardiente cuerpo.
Con un oscuro cuerpo,
de quien nada conozco
sino su juventud.


Via o melhor amigo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Half

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde
Metade mulher metade sonho

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Além disso quero-te, e faz tempo e frio

Amo-te por sobrancelhas, por cabelos, debato-te em corredores
branquíssimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadezas de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

Ouvi dizer

Na Rua Nova de Santa Cruz, Braga.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Numa sala de aula


Falando de poesia, carregando com os livros
às braçadas até à mesa onde as cabeças
se curvam ou olham para cima, escutando, lendo em voz alta,
falando de consoantes, elisões,
cativas do como, esquecidas do porquê:
olho para a tua cara, Jude,
que não franze o sobrolho nem acena que sim,
opaca na obliquidade das partículas de pó sobre a mesa:
uma presença como uma pedra, se uma pedra pensasse
'O que não posso dizer, sou eu. Para isso vim.


In Uma Paciência Selvagem, 
Lisboa: Cotovia, 2008

Via Inês Dias

Se estou só


Se estou só, queres tu saber:
Pois bem, sim, estou só,
como o avião que voa só e horizontal,
fixado no feixe de rádio,
e atravessa as Montanhas Rochosas,
visando os corredores orlados de azul
de um qualquer aeroporto no oceano.

Se estou só, queres perguntar:
Bem, é claro, só
como uma mulher que atravessa de automóvel o país,
dia após dia, deixando atrás de si,
milha após milha,
cidadezinhas onde podia ter parado
e vivido e morrido em solidão.

Se estou só,
deve ser a solidão
de ser a primeira a despertar, de respirar
o primeiro sopro frio da manhã sobre a cidade,
de ser a única acordada
numa casa envolta em sono.

Se estou só,
é com o barco a remos bloqueado na margem pelo gelo
na derradeira luz vermelha do ano,
e que sabe o que é, que sabe não ser
gelo, nem lama, nem luz de Inverno,
mas madeira, dotada para arder.

Inferno


nem sempre o inferno é noturno, nem tão dantesco
nem parecido com as fundições de Hieronymus Bosch.
o inferno pode muito bem ser acordar para o recheio
silencioso da casa, as mesmas três maçãs solitárias
na fruteira, o edredão puxado para trás sobre a cama
as dedadas no espelho do quarto, o desarranjo de papéis
em cima da mesa, as garrafas espalhadas pelo chão
a marca indelével do cigarro na ponta dos dedos

porque a solidão cansa, como cansam as palavras de
que precisamos depois do silêncio de que precisávamos.
somos todos bem mais humanos do que pensamos
mesmo orgulhosamente agarrados ao vazio, mesmo
apertando as palavras à garganta, como se apertam
os botões de cima e a maldita gravata por cima deles

nem sempre o inferno é noturno, nem subterrâneo
nem tão icónico como as descidas de Ulisses e de Orfeu.
à viva luz do dia, no plano horizontal da calçada, no lixo
que se acumula em cada esquina ou por dentro de nós
o inferno tortura, faz-nos iguais a todas as almas errantes
de que a memória se socorre, ainda ensonada, miserável
Via blog Dias Desiguais.

domingo, 13 de janeiro de 2013

People ain't no good


Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

People ain't no good por Sharon Van Etten (Nick Cave Cover)
ver a partir dos 1.20'.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

And I love you without measure


Come over here, babe
It ain't that bad
I don't claim to understand
The troubles that you've had
But the dogs you say they fed you to
Lay their muzzles in your lap
And the lions that they led you to
Lie down and take a nap
The ones you fear are wind and air
And I love you without measure
It seems we can be happy now
Be it better late than never

Sweetheart, come
Sweetheart, come
Sweetheart, come
Sweetheart, come to me

The burdens that you carry now
Are not of your creation
So let's not weep for their evil deeds
But for their lack of imagination
Today's the time for courage, babe
Tomorrow can be for forgiving
And if he touches you again with his stupid hands
His life won't be worth living

Sweetheart, come
Sweetheart, come
Sweetheart, come
Sweetheart, come to me

Walk with me now under the stars
For it's a clear and easy pleasure
And be happy in my company
For I love you without measure
Walk with me now under the stars
It's a safe and easy pleasure
It seems we can be happy now
It's late but it ain't never
It's late but it ain't never
It's late but it ain't never
(*)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

um deus que dança


Venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.

(*)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Partir


Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti
Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Livro do Frio

Veio tua língua; está na minha boca
como uma fruta na melancolia.

Tem piedade em minha boca: liba, lambe,
meu amor, a sombra.

In Livro do Frio, edição Assírio & Alvim, 1998.

Natale 1926


È passato anche questo Natale. Giorno lieto, di una letizia un po’ tradizionale, come il panettone e il tacchino, come il vischio portafortuna, come il Presepio o l’Albero di Natale; giorno dunque di festa ma, come ogni data singolarmente importante e solenne, di rimpianto per quelli passati.
Sentimento strano, ingiusto in me, che sono ancora quasi bambina, che dovrei guardare solo all’avvenire, fiduciosa, serena! Forse gli anni scorsi sentivo così; quest’anno, invece, no; è diverso, non so perché. Ho paura, e non so di che: non di quello che mi viene incontro, no, perché in quello spero e confido.
Del tempo ho paura, del tempo che fugge così in fretta.
Sobre Antonia Pozzi.
Via Averno