quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Grotesco

Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?
Via arquivo de cabeceira

domingo, 9 de dezembro de 2012

Acis and Galathée


Ela adormeceu-me nos braços e eu senti-me um polvo de dois braços. Abracei-a como podia e deixei que o meu tentacular olhar a fixasse em pedra. E os meus pensamentos, agora sólidos, enchem-se de pó dos dias, sujando os nossos corpos de um amor sem fim.
Acis and Galathée - Jardin du Luxembourg, Paris
Via Paulo Brandão

sábado, 8 de dezembro de 2012

Alteração


1
Já então me faltava o sentido
do mundo já tudo me faltava ou
tudo havia já então a esperança
permitia o cansaço ou nada
permitia já nos braços
de novo me faltava ou tinha tudo o
que a dor prometia

Já nos braços havia o sentido
a tristeza havia a tarde
a noite e tudo o mais que o tempo
dava faltava-me o sentido
da tristeza tinha o tempo
e o medo da esperança que
o cansaço permitia

2
Está tudo como antes até esta
perfeita liberdade de perdermos
com a vinda da noite o que
ainda tivermos a vida
por exemplo se tudo pois
assim puder perder-se

Está tudo como antes até este
medo intacto de tudo
se perder até que a névoa a
neve a noite por exemplo
suspendam o que ainda
houver por suspender

Está tudo como antes até esta
completa suspensão da noite
por exemplo o desejo o prazer
a solidão por vezes a esperança
dos nervos está tudo como antes
até anoitecer

in Os Poemas, edição Assírio & Alvim,

Vamos ser velhos




Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

Num livro de Dylan Thomas


Passados seis anos, pouco mais serás
do que isto: o marcador
que assinaste, subitamente descoberto,
uma frase que poderia ser um verso
(«nunca consegui amar nunca»)
a meio de um livro e da minha vida.
Esqueçamos, por esta vez, os desencontros,
a sombra magoada com que
os teus lábios pousaram sobre papel
de arroz - e arderam (o mesmo livro
me contou que não te serviu de filtro
o bilhete para o Seixal, 12 SET. 1996).
A outrem perguntaria se a arte pode ser razão
da arte, enquanto o ciúme (crescendo
no escuro) fulmina talvez as melhores páginas.
Ou nem isso faria: a manhã é lá fora
renovada promessa de abandono
e acabei agora mesmo de ver Mamma 
Roma - mais um filme, a vida toda,
a separar-nos.
Quando afinal nada,
deste nada, ficará, «as I sail out to die»
com a última memória do teu nome.
in Blues for Mary Jane, 2004

Sem ti

Via Luísa Lima.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Linguagem e Amor

Voltaste
da sombra com o teu rosto
Que ficou ainda por dizer

Lábios tocaram palavras
palavras corpos
lábios lábios

Dádiva Matinal

Um beijo
e estas palavras
ao teu ouvido

na tua boca
possa este peso imposto
ser-te leve

em direcção ao mar

(...)
Quem me dera que a chuva viesse e nos diluísse um ao outro, e pela noite corrêssemos como um regato em direcção ao mar.

domingo, 18 de novembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

a ponte


Se me disserem que estás do outro lado 
de uma ponte, por estranho que pareça

que estejas do outro lado e que me esperes,
eu atravesso essa ponte.

Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu atravesso-a.

[Trad. Inês Dias]

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Discurso Amoroso



A CONVERSA
DECLARAÇÃO. Propensão do sujeito apaixonado para falar abundantemente, numa emoção contida, com o ser amado do seu amor, dele, de si, de ambos: a declaração não incide sobre a forma, infinitamente comentada, da relação de amor.
1. A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção resulta de um duplo contacto: por um lado, toda uma actividade de discurso vem acentuar discretamente, e indirectamente, um significado único, que é "eu desejo-te", e liberta-o, alimentando-o, ramificando-o, fá-lo explodir (a linguagem tem prazer em tocar-se a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contacto, esgoto-me ao fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.
(Falar apaixonadamente é gastar sem termo, sem crise; é manter uma relação sem orgasmo. Existe talvez uma forma literária para este coitus reservatus: é a afectação.)

(Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Al Berto - Diários


(...)
...tudo o que eu gostaria de ter aqui está tão longe, não sei aonde, está longe o amor que às vezes esperava. E não virá...
Consolo a minha saudade com fotografias tuas. Mas sei que há muito se apagaram os sorrisos do teu rosto. Envelhecemos separados, tenho pena, agora já é tarde, estou cansado demais para as alegrias dum reencontro. Não acredito na reconciliação ainda menos no sorriso que fizeste para as fotografias...
(...)
In Diários, Al Berto, edição Assírio, 2012.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012