quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A ti que me inspiras eu desejo e obedeço

A ti que me inspiras eu desejo e obedeço
À tua invisível fuga e ao teu errante regresso
Até ao fundo berço do ritmo chamas-me
trazendo-me a concha da profundidade

São sem fim sem fim os dilúvios caídos
Corações que a tempo provaram a sua fragrância
Aqui estão apesar de tudo as palavras perdidas
E eu componho um verso de saber e perdão.
Via Língua Morta

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

De Cara a la Pared

foi talvez a nossa última canção.
oiço ainda os corpos a vincar a noite,

um campo minado de corações tristes

explodindo o rosto na parede.
muitas músicas depois

quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes
voltei a ela: ficara-me sempre, afinal,

um terrível verso solitário
e a culpa de a ter levado
a um coração onde as canções

morreriam de frio.

encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.


Realização: Diogo Varela Silva
Montagem: Gonçalo Soares
Imagem: Diogo Varela Silva e Pedro Lopes
Fotografias: Nuno Carvalho e Pedro Lopes

Fora do lugar

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos
sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas
de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.

in Periférica, n.º 6, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

tempo de poesia

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito.
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso dum manancial de auroras
Abandonando sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

trad. António Ramos Rosa in tempo de poesia, 1970

Sobressaltos

Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou.
(...)

trad. Miguel Esteves Cardoso
in Últimos Trabalhos A&A, 1996.

Fotografias

Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.

in Periférica, n.º 4, Vila Pouca de Aguiar, 2003.

O Taxi

Quando me afasto de ti
o mundo bate sem força
como um tambor que enfraquece.
Eu chamo-te entre as estrelas lá no alto
e grito pelas cristas do vento.
As ruas, rapidamente,
uma a seguir à outra,
levam-me para longe de ti,
e os candeeiros da cidade furam-me os olhos
para que não mais contemple a tua face.
Porque deverei eu abandonar-te,
para acabar magoada nas afiadas esquinas da noite?

tradução de Ricardo Marques in Não Eram Rosas, Língua Morta, 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Domingo

Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.

in Piolho n.º6, Edições Mortas, 2011.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Loveless

when your eyes don't speak the truth
and denial is your muse
when your life follows a plan,
your convenience is banned
(...)
your loveless, it's okay you,ve planned it well
you will be happy to know that I've moved on as well
your loveless, it's okay you,ve planned it well
it's seemless, i already know you well

And from your lips she drew the Hallelujah

Para quem me esqueceu

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

(De tanto bater o meu coração parou) Desalento

Para a livreira desconhecida
Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –

tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

tradução de Inês Dias in Morte de uma estação, Averno, 2012.

Friday "Never Let Me Go"

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Não dizia palavras

Não dizia palavras,
aproximava tão-só um corpo interrogante,
porque ignorava que o desejo é uma pergunta
cuja resposta não existe,
uma folha cujo ramo não existe,
um mundo cujo céu não existe.

A angústia abre caminho entre os ossos,
sobe as veias
até se abrir na pele,
provedores  de sonho
feitos carne em interrogação voltada às nuvens.

Um roço de passagem,
um olhar fugidio entre as sombras,
chegam para que o corpo se abra em dois,
ávido de receber em si
outro corpo que sonhe;
metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
iguais em forma, iguais em amor, iguais em desejo.
Ainda que seja só uma esperança
porque o desejo é pergunta cuja resposta ninguém sabe.

in Placeres Prohibidos, Ed. Castalia, Madrid, 1991.

Pausa

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

tradução de Inês Dias in Morte de uma estação, Averno, 2012.