terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Nocturno

Paixão, um filme de Margarida Gil

...quando un uómo comincia a toccare con le parole arriva lontano con le mani...

Neruda, Troisi e Cucinotta...eternos!
Via Raquel Serejo Martins

Nyx, deusa da noite (William-Adolphe Bouguereau - La Nuit (1883)

(...)
és o sublime que me antecipa.
o acordo dos monólogos na elaboração do discurso que o vento largará e que provocará a debandada das núvens e a dispersão das sementes.

na planicie árida onde os homens repousam crescem circulos de fogo onde se queimam as verdades até nada mais serem
são centros ferteis onde nenhuma palavra é concebida sem a anuência da vastidão, o invisivel nocturno
de onde nenhuma palavra se evade sem que se derrame, pelo peso, a sua essência e se inflamem os medos - as víboras - os dedos,
onde todas e cada uma das palavras que nascem e morrem, se recriam enquanto estigmas.

é o teu nome a origem do encantamento.
o entremeio, a pauta, ora dia, ora noite,
o sustenido rebento do Caos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Caracol

Rayuela capítulo 7

Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.»
in O Jogo do Mundo (Rayuela), Cavalo de Ferro, 2008

Rayuela Capítulo 7 - Na voz de Julio Cortazar

domingo, 29 de janeiro de 2012

cigarros Nazir

Após a morte de meu avô, ao esquadrinhar o seu quarto-maravilha, espécie de bric-à-brac científico-artístico, encontrei um maço intacto de cigarros Nazir e uma boquilha de cerejeira. Embolsei o tesouro.
Na Primavera, encontro-me uma manhã em Maisons-Laffitte, entre ervas altas e cravos selvagens, abrindo o maço e fumando um dos cigarros. A sensação de liberdade, de luxo, de futuro, foi tão forte, que nunca, aconteça o que acontecer, nunca sentirei nada de análogo. Poderão nomear-me rei ou guilhotinar-me: a surpresa, a estranheza, não seriam mais intensas do que esta entrada interdita no universo das pessoas grandes; universo de lutos e amargura.
Uma coisa ainda me encanta, me transporta instantaneamente à infância: a tempestade. Mal ela ribomba, mal ela solta a sua vasta claridade malva, inunda-me uma doçura, uma calma. Eu detestava tanto a nossa casa de campo, vazia, uns e outros partindo (para ocupações fora), como detesto que leiam o jornal defronte de mim. A tempestade assegurava-me uma casa cheia, lume, jogos, um dia íntimo e sem desertores. Sem dúvida é esta a antiga sensação de intimidade que comanda esta alegria logo que escuto a tempestade.


(tradução de Maria Teresa Horta)
in Ópio, Ulisseia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

encontramo-nos, desencontramo-nos e encontramos novas pessoas


But there is really nothing, nothing we can do.
Love must be forgotten.
Life can always start up anew.
The models will have children, we'll get a divorce,
we'll find some more models,
Everything must run its course.

my girlfriend's girlfriend

"Her and me and her and she and me"*

Pintura: As Virgens de Klimt
* Letra: my girlfriend's friend dos Type O Negative 

CANÇÃO DA VIDA, 1

Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar. Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.
in Telhados de Vidro, n.º 14, edição Averno,2010.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Com o Sonho nas Mãos!

Pela Clarabóia procuramos o Deus das Pequenas Coisas e tememos o simbolismo de Némesis. Maldito Karma! Ressoou nas nossas mentes, a horas impróprias para consumo, mas deliciosas na inspiração. Descobrimos a Magia dos Números na beleza da capacidade geométrica do pensamento, na analogia das coisas simples. Intuímos os cometas e viajamos 100 anos e por resposta alguém nos disse  No Meu Peito não Cabem Pássaros. Também não cabia A Boneca de Kokoschka e o seu tamanho, mesmo que grande fosse a Praça de Londres. Debaixo do Vulcão visitamos Orlando, invejamos a dualidade do tempo, esse que passa indiferente às nossas considerações. Sem bagagem nem receio fizemos uma Viagem à Índia. Para trás ficara A Casa de Papel com Bibliotecas Cheias de Fantasmas. Se Isto é um Homem, corroeu-nos as entranhas da existência na brutalidade do nada a que o próprio homem pode reduzir o seu semelhante. Ficamos a saber que Os Peixes Também Sabem Cantar, entre o frio e os enigmas, na Islândia. Aprendemos a chamar Marina ao mistério, à tragédia e à intensidade, e conversámos com Kant e com a reserva mental na exigência de um imperativo categórico pela Crítica da Razão Criminosa. A Mecânica do Coração encheu-se de imagens e fantasia e bateu-nos à porta. N´o Verão Selvagem dos Teus Olhos fomos embalados pelo Anjo Caído. As parábolas Orientais viajaram até cá no barco que trazia Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, e não podíamos ter começado sem Um Grande Retrato.


Ao longo do corredor desta viagem encontramo-nos com Pessoa(s) e Torga(s), tivemos Régio(s) pensamentos e muitos, muitos outros encontros. Atrevemo-nos a ser escritores sem livro, partilhamos notícias, apontamentos, curiosidades literárias, textos, imagens e sonhos.
Eis-nos chegados aqui, embriagados por Baudelaire e a acreditar em Deuses Verdes. E convosco, sempre!
Levaram-nos a votos, e nós fomos, na aventura de perceber os nossos ecos. Passamos à segunda fase de votação e aos nossos leitores o devemos. Agradecemos com um brilho nos olhos gigante! E por sabermos que esta aventura vale a pena e que continuaremos sempre a alimenta-la, com a paixão que nos caracteriza, o pedido é simples: Votem em nós e voem connosco! Sem asas de ícaro e com o sonho na mãos:


                     Leva um minuto e não podia ser mais fácil:


1- ir a este link: http://aventar.eu/blogs-do-ano-2011/
2- procurar a categoria Livros / Literatura / Poesia (está por ordem alfabética)
3 – clicar em Clube de Leitores e depois em ‘Vote’.


Obrigado!!
texto e video da autoria do blog Clube de Leitores.

pictures of you


I've been looking so long at these pictures of you
That i almost believe that they're real
I've been living so long with my pictures of you
That i almost believe that the pictures are
All i can feel

Remembering
You standing quiet in the rain
As i ran to your heart to be near
And we kissed as the sky fell in
Holding you close
How i always held close in your fear
Remembering
You running soft through the night
You were bigger and brighter and whiter than snow
And screamed at the make-believe
Screamed at the sky
And you finally found all your courage
To let it all go

Remembering
You fallen into my arms
Crying for the death of your heart
You were stone white
So delicate
Lost in the cold
You were always so lost in the dark
Remembering
You how you used to be
Slow drowned
You were angels
So much more than everything
Hold for the last time then slip away quietly
Open my eyes
But i never see anything

If only i'd thought of the right words
I could have held on to your heart
If only i'd thought of the right words
I wouldn't be breaking apart
All my pictures of you

Looking so long at these pictures of you
But i never hold on to your heart
Looking so long for the words to be true
But always just breaking apart
My pictures of you

There was nothing in the world
That i ever wanted more
Than to feel you deep in my heart
There was nothing in the world
That i ever wanted more
Than to never feel the breaking apart
All my pictures of you

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

LA FURA DEL BAUS em Guimarães

Noite inesquecível. Estou muito orgulhoso de ter feito parte dos Fura neste espectáculo. Só faltam mais 4 :D
Moltes gràcies a tots de La Fura del Baus!

os outros (100º poema)

Despimo-nos dos outros
secamente
e devagar ficamos
enlaçados

Enquanto a noite voa
no seu vento
procuramos a paz fora de tempo
e a ternura a meio da madrugada

Quem foi que nos
deixou
uma certeza?

Quem foi que nos
disse
encantamento?

Quem foi que nos
leu
a nossa vida?

Quem foi que nos
acendeu
o pensamento?

Que viagem difícil
de regresso

Que objecto difícil
de repor

Que adiado veneno
não tomado

Que estranha tempestade
sem fragor

Despidos meu amor
dos outros tarde
mas sedentos de esperança
sempre cedo

Acusados
Suspeitos
Devassados

A fazer amor
do nosso medo

in Poesia Reunida, edição D.Quixote, 2009.

mercy seat

And the mercy seat is burning
And I think my head is glowing
And in a way I'm hoping
To be done with all this weighing up of truth.
An eye for an eye
And a tooth for a tooth
And I've got nothing left to lose
And I'm not afraid to die.