sábado, 7 de janeiro de 2012

metadona para o amor

Naquele tempo chamávamos maravilhosos
a certos momentos, não sei se hoje ainda
se diz assim, maravilhosos, mas era uma coisa
que metia um dia límpido, uma boa refeição
(com um bom vinho), amor de trepar
pelas paredes. Num desses momentos
maravilhosos, em que não sabíamos
onde íamos parar, quis negar a paixão
por ti, mas já não fui a tempo. Digamos
que fiquei agarrado, e agora, que tomo
uma espécie de metadona para o amor,
sinto saudades enormes da droga verdadeira.

[...]
in Se as Coisas Não Fossem o Que São, Assírio & Alvim, 2010.

Ouvido no metro

amanhã cedo não posso, desculpa
tenho um funeral às onze horas
ouço a mulher de pele ardida
dizer à boca do telemóvel

mas depois do enterro fico livre

e penso:
também eu conto com isso

Poema retirado daqui.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Não temos muito tempo para amar

Não temos muito tempo para amar.
A luz vai desaparecendo.
As coisas que amamos são as mesmas
que em breve perderemos.

Os piores vestidos são os que
diariamente se vão usar.
Os teus cabelos já te vi pentear,
em silêncio - íntimo,
escuro e caloroso.

Tentaria tocar-te num braço,
mas escolhi não o fazer.

Podia, mas não quis, quebrar
aquilo que se mantém imóvel.
(O mais ténue suspiro
quase seria um estridente grito).

Por isso, os momentos passam
como se quisessem ficar.
E não temos muito tempo para amar.
Uma noite. Um dia...


in Alguns Poemas, edição Língua Morta (010), 2011.

Quando A Alma Não É Pequena

Oliverio Girondo

1

Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem tempo as que pretendam seduzir-me.
Foi esta – e não outra – a razão por que me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios às prestações e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as extremidades de palmípede e os olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma autêntica pluma!
Mal amanhecia, voava do quarto para a cozinha, da sala para a despensa. A voar preparava-me o banho, a camisa. A voar fazia as compras, terminava os seus afazeres.
Com que impaciência esperava que ela voltasse, voando, de algum passeio pelos arredores. Ali, bem longe, perdido entre as nuvens, um pontinho cor-de-rosa. «Maria Luísa! Maria Luísa!»… e em poucos segundos abraçava-me com as suas pernas de pluma, para me levar, voando, a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras habitávamos uma nuvem, como dois anjos, e de repente, caindo em espiral, como uma folha seca, a aterragem forçada de um espasmo.
Que prazer ter uma mulher tão ligeira…, ainda que, de vez em quando, nos faça ver estrelas! Que volúpia passar os dias entre as nuvens… e as noites num só voo!
Depois de conhecer uma mulher etérea, pode achar-se algum atractivo numa mulher terrestre? Existirá alguma diferença entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender o interesse de uma mulher pedestre, e por mais que tente, não consigo sequer imaginar que se possa fazer amor senão a voar.

in Espantalhos, trad. Rui Manuel Amaral, edição Língua Morta, 2011.

Joaquim e Judite

Para o Manuel,
na Nazaré

Fizera toda a viagem com ele ao colo.

Queria despedir-se junto ao mar,
mas as partidas são tão imperfeitas
se o coração é uma caixa de cinzas
demasiado enferrujada para abrir
ao vento. Mesmo agora, depois de lavada
a última partícula que se lhe colara
à pele, sabia que o amor passara a ter
o peso exacto das ondas e, por isso,
nunca mais deixaria de o ouvir.

E ria, apontando-nos mais um turista
à procura das marcas do milagre
na pedra. Como se não fosse milagre
suficiente cada volta do mar: sermos
ainda reconhecidos, sete passos
dentro da noite, quando andamos
pelo mundo a povoá-lo de fantasmas.

in Em caso de tempestade este jardim será encerrado, edição Tea For One, Dez. 2011.

Meia-noite em paris

meia-noite em paris.
a minha meia-noite em paris pretende alcançar
as asas do meu silêncio.
não reclama qualquer ferida alheia, não
ostenta o seu coração giratório.
há um pássaro que reconhece um
momento menos sóbrio
e pousa, há uns olhos que permanecem
intactos e não olham.
é meia-noite em paris, ainda que a cidade
seja outra. e esta cidade é, de facto, outra.
o amor acende as luzes do medo.
as janelas do tempo recebem a ventania
que as sombras já não seguram.
há uma tristeza descoordenada nas imagens
dos espelhos que paris augura.
meia-noite em paris. a verdade
é directamente arrancada do coração
e com ele.

Poema retirado daqui.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Napule

Aqui o mar é sono perpétuo,
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.

Eu, que tanto tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto

— as palavras falham, e essa é a comunicação.
Primeiro poema do livro Napule, edição tea for one, 2011.
Poema retirado daqui.

I'm going in

ao piano, um corpo pronto
a nascer tudo de novo

a promessa dedilhada do regresso
àquele ponto de encontro
circular, em que já não recordamos
quem somos, nem por quem

chorámos. aquecemos as mãos
batidas pelo vento, a pele funde-se
aos poucos com as asas, o sangue
com as florestas e os rios.

this is how it starts,
olhamos a manhã ao longe
à espera que nos desenhem um rosto.

in Small Songs, edição Averno, 2010

Ernesto Sampaio a Fernanda Alves

Não temos mão na treva –
fio de lama que escorre
à superfície da pele,
acusação afectuosa
de um brilho esmorecido,
morte trespassada
de anúncios que nos embalam
à hora de adormecer os ninhos.
Viemos do nada, errámos
pelo corpo como a força
de uma raiz exaurindo o caminho
que vai dos tímpanos ao coração.
Por isso palpitamos
e tememos e agimos.
Por isso resgatamos num sopro
a explicação das pontadas.
Por isso dizemos ser o mundo
esta treva e nós a luz que destoa.
Por isso contrabandeamos paixões,
consentindo no insulto que é dizer:
amo-te.
Não sei quem és. Não sabes quem sou.
Somos apenas alguém à espera,
fantasiando o absurdo da vida,
crentes de que um dia o nada de onde vimos
possa tornar-se o tudo para onde vamos.

in A Dança das Feridas, de , edição do autor, 2011
Via blog Bibliotecário de Babel

The Ship Song

Kind of blue

boa noite!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Modo de Amar II

Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento...

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo...

Por-me-às de borco;
Digo:
ajoelhada...

as pernas longas
firmadas no lençol...

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome...

(Por-me-às de borco,
assim inclinada...

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

in Poesia Reunida, edição D.Quixote, 2009

Hurt

Isto Não fica Assim!

O III Encontro Livreiro, o convívio e o encontro anual de «gentes do livro», realiza-se no dia 25 de Março de 2012, a partir das 15 horas, na livraria Culsete em Setúbal.
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