sábado, 31 de dezembro de 2011

Orla Marítima

Para a Rute
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

Ruy Belo in O Tempo da Suaves Raparigas e outros poeamas de Amor. Edição A&A (Gato Maltês)

2011 acaba hoje*

2011 acaba hoje. Finalmente, para mim. Chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe o ano da mudança, dos obstáculos, dos desafios... da montanha russa.
Aos que estiveram sempre lá; até logo. Aos amigos que me retribuem carinho e respeito; até amanhã. Aos que passam e sorriem; até para a semana. Aos que se esquecem muito rápido; até um dia. Aos que me desejam mal; boa sorte (porque é preciso para viverem com vós próprios).
Somos feitos de coisas boas e más. De coisas importantes, e não-tão-importantes. Eu cada vez mais prefiro as importantes e boas.
Cliché ou não, a verdade é que:
It's a new dawn, it's a new day, it's a new life for me.

Feliz 2012! I'm gonna love it!"

*texto de Li Alves

Feliz Ano Novo

Fall in light, fall in light
Fall in light, fall in light
Feel no shame for what you are
Feel no shame for what you are
Feel no shame for what you are
Feel no shame for what you are
Feel no shame for what you are
As you now are in your blood
Fall in light, fall in light

Feel no shame for what you are
Feel no shame for what you are
Feel it as a water fall
Fall in light, ooh
Fall in light, fall in light, fall in light
Fall in light, fall in light, fall in light
Grow in light

Stand absolved behind your electric chair, dancing
Stand absolved behind your electric chair, dancing
Past the sound within the sound
Past the voice within the voice

Leave your office
Run past your funeral
Leave your home, car
Leave your pulpit
Join us in the streets where we
Join us in the streets where we
Don't belong, don't belong
You and the stars
Throwing light

Fall, fall
Fall in light, fall in light. fall in light
Fall in light, fall in light fall in light
Grow in light.

Menina Dança #1

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Justo Jorge Pádron (2)

El espectro del ansia

¡Qué sensación de nunca se hace umbría en tus ojos,
qué sinuosa evidencia desolada,
de vacío sin fin ante la posesión
entregada, desnuda e imposible!

¿Quién puede consolar este deseo
que está perdiendo el ser entre lo vivo?

¿Eres tú, inocencia demoníaca,
en la inmisericorde tentación,
la que reclama aún este fuego de médulas?

La pasión ha secado su hontanar.
Ya eres el desterrado de tu cuerpo.
Te escarba y te persigue el espectro del ansia.
El tacto se extravía en los ciegos sentidos,
anhela su redoble y no lo encuentra.

Agotada la copa enhiesta de la llama
se apagaron las luces de la sangre,
y en el desasosiego del futuro,
esa voz sin piedad de tu exilio sentencia:
Sólo lo que has perdido es tu desierto.

Justo Jorge Pádron

Desde el fondo del vino una mujer me invoca...

Desde el fondo del vino una mujer me invoca
con un riesgo sinuoso. Su cuerpo se ilumina
como exaltada llama empañada de invierno,
como enterrada lluvia rompiendo sus latidos,
deshaciéndose en música envolvente,
tan desolada y bella, hasta cegarme.

El oro fascinado de su risa
me lleva hasta el delirio de celebrar su cuerpo.
Con su hechizo me invade desde el aura
de su rosa sombría, que absorbe en su corola
el absoluto tiempo que viví.

Y así, preso y errante, en su inquieto perfume
tibiamente lejano, me destierra en el vino
bajo la maldición de su recuerdo.

Poema retirado daqui.

Luiza Neto Jorge

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

in Poesia, Assírio & Alvim, 2001.

Boa noite :)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

F.S. Hill

Para a Rute
Numa manhã igual a tantas outras,
depois de redescobrir a vida
que me resta
sob a pele humedecida
pelo rio que me beija os pés,
vi-me partir pelo ralo
daquele navio ancorado
no cais do silêncio.
Foi uma partida feliz,
em espiral,
como num passo de ballet,
subtil e harmonioso,
sem falsas despedidas
ou promessas vãs.
Desapareci-me sem deixar rastro.
Nem mágoa.
Ficou apenas este corpo
pronto a habitar
e algumas memórias a decorar
as suas paredes transparentes.
Deixei, também, o gira-discos
a tocar,
para não me sentir tão só.
A canção permanece
ecoando sobre o meu colo.
Os dias vagueiam pela casa
e os livros morrem de tédio.
Nem uma dor.
Nada.
E mesmo assim é tanto.

Poema retirado daqui.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Peixe de Chernobil

À procura da minha Alma Mater

Monet - Gare de Saint Lazare

Exterior da gare de Saint Lazare, 1877.
Gare de Saint Lazare
Gare Saint Lazare: Chegada de um comboio, 1877.
 Gare Saint Lazare: Chegada de um comboio, 1877.
 Gare Saint Lazare
 Gare Saint Lazare: Chegada de um comboio, 1877

Sylvia Plath (2)

Espelho

Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos.
O que vejo engulo de imediato
Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, simplesmente verídico —
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente.
É rosa, manchada. Fitei-a tanto
Que a sinto parte do meu coração. Mas cede.
Faces e escuridão insistem em separar-nos.

Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim,
Buscando na minha posse o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua.
Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra.
Ela paga-me em choro e em agitação de mãos.
Eu sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã a sua face alterna com a escuridão.
Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

(Tradução inédita de Pedro Calouste)

Poema retirado daqui.

Sylvia Plath


Paizinho

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.

(tradução inédita de Pedro Calouste)
Poema retirado daqui.