segunda-feira, 30 de abril de 2012

De ti para mim*


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

*<3 U

Portrait of a Man

Xilogravura; Ano 1920.

Sorrir pelo ângulo da malícia

Para a V.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti ______________
__________ até que a dor alegre recomece. 

Entregate a mis brazos


Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu sinal de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor.
Via sketches for my sweetheart the drunk - um diário destes não magoa.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

canção da vida 4

Devias querer vida em vez de palavras. Devias saber que as palavras não choram, não riem. Devias, sobretudo, aprender que estás só. Nenhuma palavra poderá viver ou morrer no teu lugar. Escreveste na mensagem que me enviaste: eu não vou poder ser feliz. Senti que estavas a trocar a vida pela poesia e nem a dor consegui ouvir. A violência do erro tudo calava e do grito que desesperada lançavas, nem dor nem poesia restavam.
Foto de Ricardo Silva

quinta-feira, 19 de abril de 2012

canção da vida 2

Quando me levanto, não sei se estou doente ou se é só a solidão. Foram estas as tuas palavras ao balcão, entre as pessoas que entravam e saíam, e nenhuma reparava que havia alguém ali a gritar uma dor que de tão funda não se ouvia. Mal te conheço, mas depois disto é como se nos conhecêssemos. Talvez um dia use esse batom vermelho, esses brincos dourados de metal barato a coroar o penteado de cabeleireiro, e no sorriso a mesma largura triste de uma distância que jamais se alcançará( será ela que nos une uma vez mais). Antes disso, vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo. Somos assim dois, eu e tu. Guarda segredo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

bésale las piernas las palabras


III
Bésale las piernas a la poesía
aunque diga que no / que aquí nos pueden ver
bésale las palabras hurga su luenga / hasta
que abra los brazos y diga Santo Dios!
o hasta que santodios abra los brazos de escándalo
bésale a la poesía a la loba
aunque diga que no que hay mucha gente que
aquí nos pueden ver / bésale las piernas las palabras
hasta que no dé más hasta que pida más
hasta que cante.

in Nueva poesía argentina (1987)
Via blog Arquivo de Cabeceira

Vício


uma oferenda queimada


Porque não havia vento,
O fumo das tuas cartas pairou no ar
Por muito tempo;
E a sua forma
Era a forma do teu rosto,
Minha Amada

terça-feira, 10 de abril de 2012

É porque amo a cálida formosura do teu torso


É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na coincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

Brandamente, por vezes, te desvio


Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços;
Sobre os meus ombros, teu cabelo.
Descansando dos meus e teus cansaços,
Tu dormes por nós ambos. Só eu velo.

Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido?

Teu ligeiro suor penetra a minha pele:
Teu suor dos transportes de há momento
Que me atrevo a provar como quem lambe mel,
Em que refresco as mãos como num leve unguento.

Brandamente, por vezes, te desvio
De mim, para melhor, depois, sentir
Que és bem tu que eu agarro, acaricio,
Bem tu que eu pude, em mim, fundir.

Ai, anular-te em mim sem te perder!
Aniquilar-me em ti, - mas sendo nós!
Velo, e nem sinto a noite discorrer.
Sonho, e que sonho de que amor feroz?

Se ela viesse agora, Aquela que em seu manto
de silêncio e de sombra nos transporta,
Não seria melhor, meu doce encanto?:
Poder eu, ao morrer, ver-te já morta?

Porque amanhã,
Se não mesmo esta noite, o nosso inferno
Não mais permitirá que qualquer sombra vã
Da glória dum momento eterno.

Nesse país de sombra onde se calam as palavras



Porque escondes a noite no teu ventre?
Nesse país de sombra onde se calam as palavras.
Aí, no escuro lago onde estremece a flor da amendoeira
E onde vão morrer todos os cisnes.

Eu desvendo a tua dor, o teu mistério
De caminhares assim calada e triste,
Quando viajo em ti com as mãos nuas e o coração louco
No mais fundo de ti, onde só tu existes.

Oh, eu percorro as tuas coxas devagar
Dobrando-as lentamente contra o peito
E penetro em delírio a tua noite
Esporeando éguas no teu sangue.

De onde me chegam estas palavras?

And the wind did howl and the wind did blow

You won't find a girl in this damn world that will compare with me.

wild is the wind

Love me, love me, love me, love me,
say you do
Let me fly away with you
For my love is like the wind, 
and wild is the wind
Wild is the wind

Give me more than one caress
satisfy this hungriness
Let the wind blow through your heart
Oh wild is the wind, wild is the wind

You touch me, I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're spring to me, all things to me
Don't you know you're life, itself!

Like the leaf clings to the tree,
Oh, my darling, cling to me
For we're like creatures of the wind, 
and wild is the wind


segunda-feira, 9 de abril de 2012

love you to death


In her place one hundred candles burning
As salty sweat drips from her breast
Her hips move and I can feel what they're sayin', swayin'
They say the beast inside of me's gonna get ya, get ya, get...

Black lipstick stains her glass of red wine
I am your servant, may I light your cigarette?
Those lips smooth, yeah I can feel what you're sayin', prayin'
They say the beast inside of me's gonna get ya, get ya, get...

I beg to serve, your wish is my law
Now close those eyes and let me love you to death
Shall I prove I mean what I'm sayin', beggin'
I say the beast inside me's gonna get ya, get ya, get...

Let me love you too
Let me love you to death
To death

Am I good enough,
for you?
Am I...for you?
Am I good enough.
for you?

momento

Um céu derretido
como cera quente.

Naquele preciso momento
em que não é possível distinguir
o dia da noite,
recordar-me de ti:

um dentro do outro.

tradução de Manuel de Freitas
in A Caixa Negra, ed. Averno, 2009.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

canção da vida 1

Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar debaixoa embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar. Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Com a tua letra

Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Um ramo de rosmarinho

Não consigo ver o teu rosto.
Quando penso em ti,
São as tuas mãos que vejo.
As tuas mãos
Cosendo,
Segurando num livro,
Descansando por um momento à soleira da janela,
Os meus olhos conservam sempre a visão das tuas mãos,
Mas o meu coração guarda o som da tua voz,
E o suave brilho que é a tua alma.

tradução de Miguel Martins
Telhados de Vidro/Averno.

Aspetti che quel desiderio venga condiviso

E' sempre maggio
E a maggio il mondo e' bello
E invitante di colori
Ma ancora sugli alberi
Ci sono solo fiori
Che prima o poi si dice
Diverranno pure frutti
E allora tu che fai?
Golosamente aspetti
Aspetti che quel desiderio
Venga condiviso
Io sono qui davanti
Che ti chiedo un sorriso
Affacciati alla finestra
Affacciati al balcone
Amore mio
(...)
E se tu mi vorrai baciare
Saro' contento
E questa serenata
E' la mia sfida col destino
Vorrei che per la vita
Noi due fossimo vicino
(...)

o ligeiro vibrar do novo amor em semente


fala-me dos arcos de céu
onde infinitos pequenos astros
se rebolam sobre a pureza
do teu rosto. fala-me dos tes olhos,
da paisagem que inventam no luar de azul
onde se adivinham os dias e se pressente
o ligeiro vibrar do novo amor em semente.

escutarei, e das tuas palavras vou tirar
outras que não são para dizer, que trazem
nos lábios o mais íntimo segredo disso que é real,
disso que ignora as paredes do olhar e em tudo
desenha o tão doce horizonte que somos em nós.

mudo ficarei suspenso da tua voz sem saber
ao certo se é verdade ou mentira, se se pode
de facto criar um rosto que nos mostre por completo,
como a pele mostra a mão, a água o beijo,
sem saber se este sangue e esperança
será suficiente para te encontrar
no rebolar dos infinitos pequenos astros.

in Um mover de mão, ed.Assírio & Alvim.

la confession


também eu trago nos ossos
a culpa, a minha grande culpa,
um hábito antigo e longo
que me disfarça as cicatrizes.

tenho frio e uma confissão
para te fazer: traí-te tanto
com outros versos, corpos
belíssimos, esguios e quentes
aninhando-se comigo na cama.

trago esta culpa nos ossos,
enganei-te letra após letra,
sem pudor, feri de morte ton espoir
et ton grand sens de l'honneur,
essa vaidade do verso livre
com que atravessas o papel.

traí-te sem pensar e dir-te-ia
para partires já, ligeiro e mudo,
não fosse esta grande culpa
nos ossos, que me faz reescrever-te
ainda sobre o vazio do poema

in Small Song, ed. Averno, 2010.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

words like violence


Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl

(...)
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
(...)

Felicidade (2)


Tão cedo está ainda escuro lá fora
Estou à janela bebendo café
e com aquelas coisas matutinas
que passam por pensamentos

E vejo um rapaz e um amigo
que sobem a rua
a entregar jornais

Usam bonés e camisolas
e um deles traz um saco ao ombro
Estão tão felizes
que não dizem nada

Penso que se pudessem dariam
a mão um ao outro
É de madrugada
e sobem a rua juntos

Aproximam-se lentamente
O céu começa a clarear
embora a lua paire ainda pálida sobre a água

Que beleza Por um minuto
a morte e a ambição mesmo o amor
não têm nada a ver com isto

Felicidade Chega
inesperadamente e vai mais além
Qualquer madrugada fala disso

Via blog Poesia & Lda

A luz incandescente de Maria Teresa Horta

Felicidade

Felicidade - o título tão comprido deste poema tão pequeno!
Felicidade - substantivo comum, feminino, singular, polissilábico.
Tão polissilábico. Tão singular. Tão feminino. E tão pouco comum.
Substantivo complicado, metafísico,
que cabe todo
na beleza clara de alguém que eu sei
e no sorriso sem dentes do meu filho.

Bibliografia para uma criminologia amorosa

Se alguém resolvesse listar as razões — e razões é, obviamente, uma palavra mal escolhida — porque deixamos de gostar uns dos outros, dava uma coisa muito parecida com os "Crimes exemplares" de Max Aub.
Via blog MALONE meurt

Stripped


Come with me
Into the trees
We'll lay on the grass
And let the hours pass

Take my hand
Come back to the land
Let's get away
Just for one day

Let me see you
Stripped down to the bone
Let me see you
Stripped down to the bone

Metropolis
Has nothing on this
You're breathing in fumes
I taste when we kiss

Take my hand
Come back to the land
Where everything's ours
For a few hours

Let me see you
Stripped down to the bone
Let me see you
Stripped down to the bone

Let me hear you
Make decisions
Without your television
Let me hear you speaking
Just for me

Let me see you
Stripped down to the bone

Let me hear you speaking
Just for me

Let me see you
Stripped down to the bone Let me hear you crying
Just for me

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Some things you have to lose along the way

(...)
I feel you
Your heart it sings
I feel you
The joy it brings
Where heaven waits
Those golden gates
And back again
You take me to
And lead me through
Oblivion

This is the morning of our love
It's just the dawning of our love
(...)
♥ ;)